Casa Maracanã
São Paulo SP | 2011

PREMIADO | PRÊMIO AsBEA 2012



























São Paulo. Nessa cidade, cuja contemporaneidade é capaz de nos colocar frente aos contrastes urbanos mais extraordinários, habitá-la pode se revelar uma condição alentadora. Em busca de um lugar onde isso possa ser vivenciado, a ideia da residência elementar adquire aqui o caráter de acontecimento. É assim, como se houvesse decidido postar-se silenciosa nos meandros oestes da metrópole, que a casa da Rua Maracanã se apresenta.

Os planos que definem sua geometria – opacos em sua materialidade acinzentada, transparentes em suas superfícies de vidro ou vibrante no mural de acesso - marcam a presença de um novo evento na vizinhança bucólica na qual pessoas curiosas se perguntam sobre o aparecimento dessa nova construção. Sua geometria dissonante em relação às tradicionais casas do bairro se mostra surpreendente a partir do momento em que oculta qualquer definição territorial, reconhecendo-se como um elemento que, bem como um acontecimento público, apodera-se da rua que lhe permite ser percebida. Por meio da ocupação de toda a propriedade que lhe é disponível, compartilha seus limites como se interiorizasse o entorno, e assim faz surgir seu lugar único.

Mais do que um espaço, seus planos vão configurando, paulatinamente, um caminho através do qual exterior e interior se fundem numa configuração própria e contínua. A casa descobre nova possibilidade para as limitações de um exíguo lote, cuja complexidade é superada pelos percursos horizontais e verticais que invariavelmente levam a uma nova experiência espacial, capaz de elucidar as singularidades da tipologia e da geografia do bairro.

Estar na casa da rua Maracanã é estar na Lapa; é conviver com suas peculiaridades, estampadas na expectativa de descobrir até aonde seus espaços podem nos conduzir e na possibilidade que nos oferece de contemplar o avermelhado dos telhados das construções vizinhas e das fachadas de alvenaria da igreja que coroa o bairro, enquanto o sol se põe no horizonte paulistano para o qual seu descortina sua fachada posterior.




CRÉDITOS

Arquitetura
Terra e Tuma Arquitetos
Danilo Terra, Pedro Tuma, Juliana Assali
Juliana Iha, Adriana Aoki

Estrutura
AVS
Carolina Ayres, Tomas Vieira

Elétrica|Hidráulica
Minuano Engenharia
Jasel Neme, Cibele Báez Neme, Roberto Abou Assali

Construção
RKF
Rafael Alves

Paisagismo
Gabriella Ornaghi Arquitetura da Paisagem
Gabriella Ornaghi, Rodrigo Bordigoni, Ricardo Tadashi

Painel
Alexandre Mancini

Fotografias
Pedro Kok

Marcenaria
Alceu Terra

Serralheria
Edison Shigueno

Adentrar a casa não significa distanciar-se da cidade que nos leva até ela ou fechar-se num universo desconexo. Seu acesso tem de ser descoberto por detrás do mural de cerâmicas pintadas em composições pretas, brancas e vermelhas. Adentrar a casa significa, simplesmente, transpor uma sucessão de espaços, ora amplos, ora estreitos, ora iluminados, ora sombreados, que nos levam sempre a uma nova experiência.

A casa, chega-se pelo vazio, que é um mirante para o espaço da morada e também uma área de identificação dos seus setores funcionais: social e serviços embaixo, íntimo acima. Como nas ruas da cidade, a luz por entre seus espaços a invade por todas as direções, pelas grandes aberturas de vidro que se contrapõem à solidez da materialidade do concreto que a constrói.

Por onde se chega, por onde se passa, por onde se vai? Pelo espaço, pelo vazio. Circulando ou permanecendo, assim descobrimos toda sua extensão. Podemos nos encontrar imersos em seu nível inferior, definido pelos planos de concreto, pelos jardins e pelos pátios que configuram seus ambientes, ou podemos percorrê-la verticalmente até o plano deslizante de sua cobertura que descortina também o céu num instante espacial que nos coloca como observadores da cidade cujo ponto de vista é o topo da casa.

A casa é uma infraestrutura de morar. A sobreposição de lajes que se configura como uma sucessão de perspectivas é sutilmente protegida pela presença dos grandes caixilhos envidraçados. A manipulação da técnica e o uso da matéria mínima, como se fossem pedras sobre pedras em sua essência física, comprovam que a arquitetura pode despir-se das temporalidades superficiais da atualidade enaltecendo unicamente sua essência espacial.

O abrigo, a proteção para o elementar: compreendem a natureza daquilo a que se destina a casa e do sentido que assume para os que a presenciam. Nada mais é necessário para se viver na cidade contemporânea. Eis a morada fundamental, única e desvelada.

Texto de Daniel Corsi